Perda do Desejo Sexual no Climatério: O que está acontecendo com você — e o que fazer
Sentir que o desejo simplesmente sumiu é uma das queixas mais comuns no climatério — e uma das menos faladas. Entenda por que isso acontece, o que vai além dos hormônios e quais são as opções de tratamento.
5/15/20265 min read
Você não está imaginando. Não é frescura. E definitivamente não é "coisa da idade que precisa ser aceita".
A redução ou perda do desejo sexual no climatério é um fenômeno real, com base fisiológica bem documentada — e com tratamento. Mulheres na faixa dos 60 anos apresentam taxas de disfunção do desejo sexual significativamente maiores do que mulheres aos 30 anos — 32,2% contra 5,2%. No Brasil, esse número representa dezenas de milhões de mulheres que, silenciosamente, deixaram de se reconhecer na própria sexualidade.
Este artigo é para você que percebeu essa mudança e quer entender o que está acontecendo — e o que pode ser feito.
O Que é a Disfunção do Desejo Sexual Hipoativo (DDSH)?
A DDSH é o nome técnico para a redução persistente ou ausência do desejo sexual, quando isso causa sofrimento à mulher. No climatério, ela se torna a queixa sexual mais frequente — e raramente tem uma causa única.
Aspectos culturais, sociais, fisiológicos e psicológicos podem interferir na função sexual no período do climatério, e a repercussão do climatério na função sexual feminina se confunde com o avançar da idade na origem das disfunções sexuais.
Em outras palavras: o que você está sentindo é resultado de uma combinação de fatores — e entender cada um deles é o primeiro passo para retomar o controle.
O que acontece no corpo: A Base Hormonal
A queda dos hormônios ovarianos — especialmente do estrogênio e dos androgênios — tem impacto direto sobre o desejo.
Entre 40 e 50 anos, a mulher registra uma queda nos androgênios em torno de 50% e, entre 20 e 70 anos, há redução de 80%. São os androgênios — como a testosterona — que sustentam o desejo espontâneo. Quando eles caem, o impulso sexual que "aparecia sozinho" simplesmente para de aparecer.
Mas não é só isso. O hipoestrogenismo afeta a atividade dos neurotransmissores serotonina, dopamina, noradrenalina e ocitocina, que desempenham papel essencial na regulação do humor e da resposta sexual. A dopamina está associada à motivação e ao prazer sexual, e níveis reduzidos podem interferir na resposta de recompensa.
Somam-se a isso os fogachos e os suores noturnos. Os sintomas vasomotores causam desconforto e sono não reparador, afetando o bem-estar com repercussão negativa na função sexual da mulher — e as queixas de redução do desejo e da frequência sexual podem atingir 72% das mulheres.
E ainda há a síndrome geniturinária: ressecamento vaginal, ardor, prurido e dispareunia podem chegar a atingir até 87% das mulheres na pós-menopausa. A dor durante a relação sexual impede que a mulher sinta prazer e contribui indiretamente para o aparecimento da perda do desejo.
O que vai além dos Hormônios
Aqui está o ponto que muitas consultas ignoram: a perda do desejo no climatério raramente é só hormonal.
O relacionamento e o tempo de convivência
Em relacionamentos de longa duração, mesmo que exista amor e relação não conflituosa,
ocorre o fenômeno de neutralidade sexual — caracterizada pela queda no interesse sexual e
redução da motivação, levando à inércia provocada pela rotina. Isso não é falha sua nem do seu
parceiro. É humano — e tem solução.
As dificuldades do parceiro
Muitas vezes, os parceiros são portadores de doenças sistêmicas e estão em uso de medicamentos que afetam a função sexual e reduzem a busca pela relação sexual. Essa redução pode ser interpretada pela mulher como sinal de desamor, com reflexo negativo em qualquer fase da resposta sexual.
A autoestima e a cultura
O envelhecimento biológico, pelas influências socioculturais negativas, pode comprometer o senso de atratividade da mulher, o que a intimida para iniciar a relação sexual, resultando em redução drástica na frequência sexual.
Existe um estereótipo histórico de que a mulher madura perde a feminilidade. Esse arquétipo perpetua a ideia de que as mulheres mais velhas são menos desejáveis e menos ativas sexualmente, e afeta a autoestima e a confiança da mulher para exercer a atividade sexual. Reconhecer isso já é parte do tratamento.
Saúde emocional
Os sintomas depressivos e a ansiedade são mais prevalentes e se acentuam com a menopausa, sendo exacerbados por eventos estressantes, problemas financeiros e baixo suporte social — e culminam com redução na frequência de relações sexuais e da satisfação com a vida sexual.
Tratamento: O que Funciona
A boa notícia é que existem abordagens eficazes — e o tratamento raramente precisa ser apenas um.
Terapia Hormonal
Quando indicada, a terapia de reposição hormonal trata os sintomas que alimentam a perda do desejo: fogachos, insônia, ressecamento vaginal e alterações de humor. A terapia hormonal e a sexualidade estão diretamente relacionadas no climatério, sendo uma das indicações reconhecidas pelo Ministério da Saúde no manejo das queixas sexuais dessa fase.
Testosterona
Para mulheres com queda do desejo espontâneo associada à redução dos androgênios, a suplementação de testosterona em doses femininas pode ser uma opção — com prescrição individualizada e monitoramento rigoroso. A Federação Brasileira de Ginecologia e Obstetrícia publicou posicionamento específico sobre o tema em 2024, reconhecendo sua indicação para disfunção sexual feminina com base em evidências.
Tratamento local para saúde vaginal
O ressecamento e a dispareunia (dor durante a relação sexual) têm tratamento próprio — com estrogênio local, hidratantes vaginais e outras abordagens — que muitas vezes resolvem parte significativa da queixa sexual sem necessidade de terapia sistêmica.
Abordagem não hormonal
Para mulheres com contraindicações ou que preferem não usar hormônios, o Ministério da Saúde reconhece alternativas que incluem tratamento medicamentoso não hormonal, fitoterápicos com evidência científica, acupuntura e medicina integrativa.
Cuidado com o relacionamento e a saúde emocional
Em muitos casos, o acompanhamento psicoterápico — individual ou de casal — é parte essencial do tratamento. A redução da comunicação do casal sobre seu funcionamento sexual e relacional, muitas vezes evitada pelo receio de colocar em risco o relacionamento, é um dos principais fatores que dificulta a reversão desse cenário. Abrir esse diálogo com suporte profissional faz diferença real.
O que você pode fazer hoje
Antes mesmo de marcar uma consulta, algumas mudanças de estilo de vida têm impacto comprovado:
Sono de qualidade: a privação do sono amplifica todos os sintomas do climatério, incluindo o humor e o desejo
Exercício físico regular: melhora a disposição, a autoestima, o metabolismo e a resposta hormonal
Reduzir álcool e tabaco: ambos têm efeito negativo direto sobre a função sexual feminina
Conversar com o parceiro: sobre o que está mudando, sem culpa e sem dramatização
Parar de normalizar o sofrimento: a queixa merece atenção médica, não resignação
Quando procurar uma Médica Especialista em Araraquara
Se a perda do desejo está causando sofrimento, afetando seu relacionamento ou sua autoestima — isso já é motivo suficiente para buscar avaliação médica.
Apesar dos altos índices de disfunção sexual no climatério, 79% das mulheres referem manter relações sexuais, e um terço delas classifica como muito importante manter a atividade sexual nesse período. Ou seja: o desejo de ter uma vida sexual satisfatória na maturidade é absolutamente legítimo — e merece cuidado.
Na consulta, será possível avaliar:
O quadro hormonal completo (incluindo androgênios)
A presença de síndrome geniturinária tratável
Fatores emocionais e relacionais associados
As melhores opções de tratamento para o seu perfil
A perda do desejo no climatério tem nome, tem causa e tem tratamento. O que ela não tem é obrigação de ser suportada em silêncio.
Dra. Thaís Cunha
Médica especialista com foco em saúde hormonal feminina, climatério e menopausa em Araraquara.
CRM SP 215178 | RQE 128315




