
Anticoncepção na perimenopausa: quando trocar o anticoncepcional pela terapia hormonal?
Você tem mais de 40 anos e ainda usa anticoncepcional? A Dra. Thaís Cunha explica quando parar a contracepção, quais métodos são mais seguros nessa fase e quando iniciar a terapia hormonal.
6/15/20265 min read
Uma das perguntas que mais recebo no consultório de mulheres acima dos 40 anos é: "Dra., ainda preciso usar anticoncepcional? Quando posso parar?"
A resposta é mais complexa do que parece — e mais importante do que muitas mulheres imaginam. Vou explicar tudo com base nas evidências mais atuais.
A perimenopausa: uma fase de transição que exige atenção
A perimenopausa — também chamada de transição menopáusica — é o período que antecede a menopausa e pode durar de 4 a 8 anos. Nessa fase, os ciclos menstruais tornam-se irregulares, os hormônios começam a oscilar e os primeiros sintomas da menopausa podem aparecer: fogachos, suores noturnos, alterações de humor, secura vaginal e distúrbios do sono.
A menopausa em si é definida de forma retrospectiva: 12 meses consecutivos sem menstruação em mulheres com 40 anos ou mais. No Brasil, a idade média da menopausa é de 48 anos, variando entre 45 e 51 anos, segundo dados do Estudo Brasileiro sobre Menopausa.
Mas atenção: enquanto a menopausa não for confirmada, a possibilidade de gravidez ainda existe.
Ainda é possível engravidar na perimenopausa?
Sim. Embora a fertilidade caia significativamente após os 40 anos, ela não é zero. A ovulação pode ocorrer de forma imprevisível mesmo com ciclos irregulares — e uma gravidez não planejada nessa fase traz riscos reais, tanto para a mãe quanto para o bebê.
Entre as complicações mais documentadas em gestações após os 40 anos estão abortamento espontâneo, anomalias cromossômicas, prematuridade, restrição de crescimento fetal, diabetes gestacional, hipertensão arterial e placenta prévia.
Por isso, a contracepção continua sendo necessária até a confirmação da menopausa — e a escolha do método precisa ser feita com cuidado nessa fase da vida.
Quais métodos contraceptivos são indicados para mulheres acima dos 40 anos?
Boas notícias: a Organização Mundial de Saúde (OMS), por meio dos Critérios Médicos de Elegibilidade para Uso de Contraceptivos, não contraindica nenhum método apenas pela faixa etária. O que muda é a necessidade de uma avaliação mais cuidadosa, considerando o perfil clínico de cada mulher.
Mulheres acima dos 40 anos têm maior risco de doenças cardiovasculares, hipertensão, tromboembolismo venoso, osteoporose e alguns tipos de câncer — fatores que influenciam diretamente a escolha do método mais seguro.
Anticoncepcionais hormonais combinados (pílula combinada) Podem ser utilizados por mulheres selecionadas abaixo dos 50 anos, sem contraindicações. Têm o benefício de aliviar sintomas vasomotores, regularizar o ciclo e reduzir o fluxo menstrual — características úteis na perimenopausa.
Porém, não devem ser usados em mulheres com hipertensão não controlada, histórico de trombose, enxaqueca com aura ou tabagismo acima dos 35 anos.
Após os 50 anos, a recomendação é trocar por métodos com progestagênio isolado.
DIU Mirena e DIU Kyleena (levonorgestrel) São excelentes opções para essa fase. Além da contracepção eficaz, o DIU hormonal reduz o fluxo menstrual — frequentemente intenso na perimenopausa —, previne a hiperplasia endometrial e pode ser mantido com segurança até os 55 anos.
O DIU-LNG 52mg (Mirena) tem ainda o benefício adicional de poder ser usado como proteção endometrial quando a terapia hormonal com estrogênio é introduzida.
Implanon (implante de etonogestrel) Método de longa duração com progestagênio isolado, seguro para mulheres com contraindicação ao estrogênio. Pode ser mantido durante a transição para a terapia hormonal, desde que avaliado individualmente.
Como já abordamos em post anterior aqui no blog, o Implanon não substitui a TRH — mas pode coexistir com ela em determinadas situações.
DIU de cobre Opção não hormonal eficaz e reversível, indicada especialmente para mulheres com contraindicação a todos os hormônios. O ponto de atenção é que pode intensificar o sangramento — já naturalmente irregular nessa fase — o que para algumas mulheres pode ser bastante incômodo.
Métodos de barreira Preservativos masculinos e femininos, diafragma e capuz cervical podem ser usados isoladamente ou combinados, mas apresentam taxas de falha maiores. São os únicos métodos que protegem contra infecções sexualmente transmissíveis — o que não deve ser esquecido nessa faixa etária.
Quando posso parar de usar anticoncepcional?
Essa é a pergunta mais frequente — e a resposta depende do método que você usa.
Segundo a Sociedade Norte-Americana de Menopausa (NAMS), a contracepção pode ser interrompida após 12 meses consecutivos sem menstruação em mulheres com 40 anos ou mais. Algumas diretrizes internacionais, como a da Faculty of Sexual and Reproductive Healthcare (FSRH), recomendam dois anos de amenorreia para mulheres entre 40 e 50 anos.
Como orientação geral, a recomendação é manter algum método contraceptivo até os 55 anos — pois nessa idade, cerca de 96% das mulheres já estarão na menopausa confirmada.
Se você usa método não hormonal (como o DIU de cobre): aplica-se diretamente o critério de amenorreia acima.
Se você usa anticoncepcional hormonal combinado: a avaliação é mais desafiadora, porque a pílula pode mascarar a menopausa — mantendo o ciclo artificialmente. Uma alternativa é medir o FSH no final do período livre de hormônio (últimos 7 dias da cartela), em duas ocasiões com 6 a 8 semanas de intervalo. Se os dois valores forem superiores a 30 UI/L, a contracepção pode ser considerada para descontinuação.
Se você usa método com progestagênio isolado (implante, pílula de progestagênio ou DIU hormonal): os níveis de FSH também podem orientar, mas o DIU hormonal pode ser mantido até os 55 anos independentemente do FSH.
A terapia hormonal pode substituir o anticoncepcional?
Não. Essa é uma confusão comum — e importante de esclarecer.
A terapia hormonal da menopausa não é contraceptiva. Estudos mostram que em usuárias de TRH com idades entre 42 e 52 anos, a inibição da ovulação ocorre em apenas 40% dos casos. Além disso, os níveis de FSH durante o tratamento hormonal podem ser variáveis e não confiáveis para confirmar a menopausa.
Portanto, mulheres que iniciam a TRH antes da confirmação da menopausa precisam manter algum método contraceptivo — e o DIU hormonal com levonorgestrel 52mg (Mirena) é o mais indicado nessa situação, pois cumpre simultaneamente as duas funções: proteção endometrial e contracepção.
Como fazer a transição do anticoncepcional para a TRH?
Quando a menopausa é confirmada — ou quando os sintomas se tornam intensos o suficiente para justificar o início da TRH — o anticoncepcional hormonal combinado deve ser suspenso, pois não deve ser usado junto com a terapia hormonal.
Após a suspensão, é comum que sintomas como fogachos, distúrbios do sono, secura vaginal e alterações da função sexual apareçam ou se intensifiquem. Esse é o momento em que a introdução da TRH deve ser considerada individualmente, em consulta com sua médica.
A transição não precisa ser abrupta nem difícil — com planejamento adequado, ela pode ser feita de forma suave e bem tolerada.
Em resumo: o que fazer se você tem mais de 40 anos
Agende uma consulta para reavaliar seu método contraceptivo atual. Mulheres acima dos 40 anos merecem um olhar individualizado — considerando seus sintomas, seu histórico clínico, seus planos reprodutivos e sua qualidade de vida. Não existe uma resposta única, mas existe a resposta certa para você neste momento.
A perimenopausa é uma fase de transição — não de abandono. Com informação e acompanhamento adequado, é possível atravessá-la com segurança, bem-estar e protagonismo.
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Dra. Thaís Cunha
Saúde da Mulher e Cuidado Integral
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